A Dolmio trouxe de volta sua família de marionetes para marcar os 40 anos da marca, após uma pausa de dez anos. A retomada atualiza personagens conhecidos sem abandonar os traços que os tornaram reconhecíveis, em um projeto que, segundo Kyle Whybrow, diretor executivo de criação da Elmwood London, precisou equilibrar memória afetiva e adequação ao presente.
A marca e seus personagens nasceram na Austrália. A Dolmio começou com um molho à bolonhesa vendido em pote de vidro e, com o crescimento do negócio, chegou a outros mercados, entre eles o Reino Unido. Papa e Mama foram primeiro interpretados por atores e, em 2003, transformados em marionetes artesanais. Mais tarde, Sophia, Carlo, Nina e Nico passaram a integrar a família.
A proposta dos personagens era retratar a agitação afetuosa de uma família reunida para comer. No Reino Unido, a pergunta “Quando é o seu Dia Dolmio?” ajudou a associar o molho a um ritual familiar. Para a marca, portanto, os bonecos não eram apenas mascotes: davam rosto à sua personalidade.

Imagem: Creative Bloq / Dolmio/Elmwood. Anúncio da Dolmio
Atualização sem perder o reconhecimento
Na retomada, a equipe não buscou substituir os personagens originais, mas adaptá-los a lares e públicos contemporâneos. O trabalho definiu princípios, comportamentos e códigos visuais para que cada integrante tivesse uma personalidade própria. A família também foi incorporada à identidade mais ampla da Dolmio, que inclui o sistema gráfico de pontos vermelhos, em vez de aparecer como um elemento separado da marca.
Essa estrutura foi pensada para permitir diferentes usos: um personagem pode surgir dentro do ponto vermelho, ou a família inteira pode protagonizar uma peça. A presença dos bonecos pode acompanhar tanto a comunicação do produto quanto momentos em torno de uma refeição, como uma tigela de massa ou uma lasanha. Segundo Whybrow, os personagens deixaram de ficar restritos a anúncios de 30 segundos e passaram a circular entre cultura, conteúdo e comércio.
Para preservar a identidade, a equipe manteve silhuetas, expressões e dinâmica familiar, e refinou detalhes de execução. O processo envolveu escolhas de roupas e materiais, texturas de pele e cabelo, pequenas nuances faciais e rugas ao redor dos olhos. Whybrow disse que referências de estúdios de marionetes e animação ajudaram a orientar os movimentos sutis que fazem os personagens parecerem vivos e favorecem a conexão com o público.

Imagem: Creative Bloq / Dolmio/Elmwood. Anúncio da Dolmio
O desafio, nas palavras do executivo, era evitar dois extremos: mudar pouco e transformar a retomada em mera homenagem, ou mudar demais e enfraquecer o vínculo existente com os personagens. “A nostalgia é uma faca de dois gumes”, afirmou Whybrow. Para ele, a atualização deveria respeitar a origem da família e, ao mesmo tempo, fazê-la funcionar para uma audiência atual.
Um sistema para diferentes canais
A Dolmio precisava que os personagens funcionassem em situações distintas: criar um momento emocional na televisão, gerar conteúdo social compartilhável e oferecer um motivo claro para a compra no ponto de venda. Em vez de desenvolver apenas peças isoladas, a equipe criou um conjunto de regras para manter a família consistente entre canais e momentos do ano. Whybrow destacou a colaboração com a T&P como parte importante desse trabalho.
O executivo disse que seu maior orgulho está no trabalho menos visível: construir princípios e códigos que permitam a cada personagem ser distinto e, ainda assim, deixar claro que todos pertencem à Dolmio. Ele também descreveu a família como entretenimento e como embaixadora da marca, capaz, segundo sua avaliação, de inspirar o público nas redes sociais e contribuir para a conversão na loja.

Imagem: Creative Bloq / Dolmio/Elmwood. Anúncio da Dolmio
Marionetes reconstruídas digitalmente
Embora os personagens originais fossem feitos à mão, a família foi reconstruída digitalmente para o aniversário de 40 anos. Whybrow afirmou que cada quadro foi avaliado tendo como referência o padrão das marionetes artesanais. Ele não considera o processo uma oposição entre o analógico e a tecnologia: citou Unreal Engine, captura de movimento e o Puppetiser, ferramenta na Austrália que permite às famílias “marionetizarem” a si mesmas, como recursos úteis quando estão a serviço da ideia criativa.
Na visão de Whybrow, a audiência valoriza o cuidado e a intenção no trabalho, e percebe quando eles faltam. Ele atribuiu parte do apego às marionetes originais à sua qualidade tátil. Também ponderou que o problema não está necessariamente nas ferramentas, mas em usá-las sem uma ideia que oriente a criação.

Imagem: Creative Bloq / Dolmio/Elmwood. Anúncio da Dolmio
Para Whybrow, a nostalgia tem valor porque se apoia em memórias construídas ao longo do tempo, mas não deve se limitar a repetir o passado. No caso da Dolmio, a família pode ser reconhecida por adultos que cresceram com os anúncios e apresentada a crianças que encontram os personagens pela primeira vez. O executivo também afirmou que a imagem de uma família reunida para comer pode atravessar mercados sem depender de tradução. A nostalgia, assim, seria mais eficaz quando aproxima gerações e mantém os personagens relevantes no presente.










