Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft planejam investir, juntas, mais de US$ 740 bilhões em despesas de capital neste ano. Anunciados ao longo das duas semanas anteriores, os planos são interpretados por investidores como gastos sobretudo com infraestrutura de inteligência artificial, incluindo data centers e chips. A aposta, antes recebida como sinal de confiança no crescimento da tecnologia, agora enfrenta dúvidas sobre financiamento e retorno.
A preocupação se refletiu no mercado na sexta-feira mencionada no relato: o Nasdaq recuou 2,9%, enquanto Nvidia caiu 4%, Broadcom perdeu mais de 5% e Qualcomm, 11%. A Alphabet também voltou a cair, depois de suas ações terem desabado 12% na quinta-feira — a pior queda diária registrada pela empresa, segundo a publicação — e de US$ 500 bilhões terem sido eliminados de seu valor de mercado.
O foco dos investidores está no fluxo de caixa livre negativo, no avanço da dívida e na incerteza sobre se os aportes em IA produzirão retornos suficientes. O contraste é relevante porque essas companhias vinham obtendo recursos de seus negócios principais, mas a expansão da IA exige investimentos elevados e pode alterar a economia de algumas dessas atividades.
A Alphabet oferece um exemplo dessa tensão. A empresa registrou fluxo de caixa livre negativo de US$ 9,1 bilhões no terceiro trimestre, o segundo trimestre consecutivo no vermelho, enquanto suas despesas de capital chegaram a US$ 51,4 bilhões. Ela prevê gastar até US$ 205 bilhões no ano e espera que o montante continue crescendo em 2027.
Ao mesmo tempo, a expansão de recursos de IA pode pressionar o negócio que financia parte dessa infraestrutura. O AI Mode, recurso de chatbot integrado diretamente à Busca do Google, é descrito no relato como bem-sucedido, mas sua adoção estaria afetando a principal fonte de receita da empresa. A publicidade da Busca responde por aproximadamente metade da receita da Alphabet, e seu crescimento desacelerou para 12%, o ritmo mais fraco em cinco trimestres.
Na Amazon, o fluxo de caixa livre foi negativo em US$ 42,4 bilhões nos 12 meses anteriores, ante saldo positivo de US$ 14,8 bilhões no ano precedente. A companhia prevê US$ 220 bilhões em despesas de capital neste ano. Apesar de a receita da AWS ter crescido 39%, as ações da Amazon caíram 7% após a divulgação dos resultados na quinta-feira.
A Meta também registrou fluxo de caixa livre negativo: US$ 2,1 bilhões no terceiro trimestre, período em que as despesas de capital superaram o caixa operacional. A empresa prevê gastar até US$ 145 bilhões no ano. Seu novo agente pessoal de IA gratuito, Muse, demanda muitos recursos computacionais; Mark Zuckerberg o descreveu como “muito intensivo em computação para operar”. A receita publicitária da Meta cresceu 26%, mas suas ações perderam 10% na semana anterior à publicação.
A Microsoft foi a exceção entre as quatro em fluxo de caixa livre: registrou US$ 18,6 bilhões positivos no trimestre mais recente. Suas despesas de capital foram de US$ 45,2 bilhões, abaixo dos US$ 50 bilhões projetados. A empresa afirmou que a diferença não representava uma decisão de reduzir o investimento em IA, mas decorria de atrasos na disponibilidade de capacidade de provedores terceirizados. Após essa explicação, caíram também as ações de empresas menores que alugam capacidade computacional para IA.
A infraestrutura não está sendo financiada apenas pelos lucros das grandes empresas de tecnologia. De acordo com a S&P Global Market Intelligence, Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle captaram juntas US$ 326 bilhões em dívida em 2026, três vezes o montante levantado no ano anterior.
A demanda por computação para IA continua forte, e Google, Amazon e Microsoft registraram crescimento em seus negócios de nuvem. Ainda assim, o custo de atender a essa demanda pesa sobre a avaliação dos investidores. Esse cenário pode complicar a abertura de capital da Anthropic, que protocolou um pedido para se tornar uma empresa pública no início da semana da publicação e depende de grandes quantidades de capacidade computacional para crescer. O Financial Times informou que a Blackstone alertou investidores de que a Anthropic talvez não obtenha classificação de grau de investimento após a operação. Nesse caso, a empresa poderia depender mais dos grandes provedores de nuvem e de terceiros para financiar seus planos de infraestrutura.










