O crescimento do setor de inteligência artificial reacendeu preocupações sobre a capacidade de investidores verificarem as alegações de empresas. Tyler Shultz, ex-funcionário da Theranos que denunciou problemas na companhia, afirma que a dificuldade de avaliar certas tecnologias pode abrir espaço para enganar investidores e o público.
“É realmente difícil fazer diligência prévia em IA”, disse Shultz ao San Francisco Standard. Ele citou a dificuldade de separar uma inovação efetiva de um produto que apenas usa o ChatGPT como base e avaliou: “Se você quiser enganar as pessoas, acho que esta é uma ótima oportunidade para fazer isso”. A declaração surge em um contexto em que empresas de IA que ainda não tiveram lucro captam recursos com avaliações bilionárias, segundo a reportagem.
Shultz também defendeu que investidores reconheçam o poder que transferem quando colocam grandes quantias nas mãos de uma pessoa. Em outra entrevista ao jornal, afirmou que a prática de conhecer alguém brevemente e depois enviar US$ 100 mil deveria acabar; segundo ele, Elizabeth Holmes ampliou esse modelo para US$ 100 milhões.
A trajetória da Theranos é apresentada como um alerta sobre a importância da verificação. Shultz trabalhou na empresa após se formar e foi um dos denunciantes que expuseram os problemas dos aparelhos de análise de sangue. De acordo com a matéria, os dispositivos eram perigosamente imprecisos, chegaram a lojas Walgreens e produziram resultados incorretos para pacientes. A Theranos alcançou uma avaliação de cerca de US$ 10 bilhões, embora sua tecnologia não funcionasse como anunciado: a empresa utilizava seus próprios equipamentos apenas em uma parcela dos testes e terceirizava os demais para aparelhos de terceiros.
O financiamento vinha frequentemente de investidores individuais, entre eles as famílias DeVos e Walton, e não de firmas de capital de risco. A empresa não apresentava a potenciais investidores informações científicas ou provas de que os aparelhos funcionavam, alegando que precisava proteger segredos comerciais. Essa postura afastou diversos investidores de capital de risco do Vale do Silício. Quando a fraude veio à tona, o caso foi visto como um alerta para que investidores priorizassem a diligência prévia; Shultz teme que a lição seja esquecida na corrida atual por empresas de IA.
A discussão ganhou novo fôlego com o documentário You Can See Everything, dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim. O filme acompanha Holmes nos dias anteriores à prisão e, segundo a reportagem, evita enquadrá-la de forma simples como uma manipuladora ou como vítima. Shultz disse ao San Francisco Standard que a atenção atual a Holmes existe porque ela quer que as pessoas continuem falando sobre ela.
Holmes cumpre pena federal superior a onze anos. No documentário, ela aparece trabalhando com o parceiro, Billy Evans, na Haemanthus, empresa de diagnóstico que os dois chamam de “Theranos 2.0”. A companhia teria captado cerca de US$ 20 milhões. A reportagem ressalta que o filme não destaca em profundidade alguns dos danos mais graves atribuídos à Theranos, como as informações médicas perigosamente incorretas fornecidas a pacientes e o assédio direcionado a Shultz quando ele tentou alertar sobre a empresa.
Shultz disse sentir inquietação sobre o que poderá vir a seguir e afirmou não saber qual será o próximo passo de Holmes. Sua preocupação com essa “segunda fase” se soma ao alerta mais amplo sobre um setor em que, na avaliação dele, pode ser difícil distinguir avanços reais de alegações pouco verificáveis.










